quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Verdadeiras origens...




Esta semana repentinamente me reencontrei com meu passado...

Uma simples palavra me levou às verdadeiras origens deste sonho, deste projeto.

Até agora, eu pensava que a vontade de fazer performances com poesia, usando a linguagem do teatro, se devia somente ao meu amor pelas duas coisas, teatro e poesia, mas me enganava...

Sombras...

Sombras do passado...

Sombras em um poema...

Um poema que era maravilhosamente dito de memóris por minha mãe e que eu, desde pequena, tantas vezes pedi que novamente o dissesse para mim...

Eu o tento ler em voz alta, tento ouvir novamente a sua voz, volto ao passado...

Nunca conseguirei fazê-lo da mesma forma que ela, impossível, ela era uma artista excepcional, uma pessoa excepcional, cujos dotes a doença roubou sem piedade...

Quando ficou doente viveu por muito tempo ainda mas sem que sua mente permitisse que seus dons se manifestassem de forma lúcida, só através do véu da insanidade...

O poema é "As Sete Sombras" de Álvaro Moreyra, que vou postar aqui:
As Sete Sombras

Saudade,
— velha torre erguida
nevoentamente
na paisagem de outono da minha alma.
Torre de onde se vê tudo tão longe...
Saudade...
Na distância, a perder-se, a voz de um sino
salma.
A luz no poente
é o pálido eco dessa voz perdida.
A alma da tarde envolve a velha torre.
E na velha torre
erguida
nevoentamente,
ondulam sete sombras silenciosas,
tecendo o sonho da minha vida...
Fico a senti-las. Lembro...
As sete sombras silenciosas...
Uma, quando chegou era novembro,
loura de sol, trazia
as mãos cheias de rosas:
— Deixa-me entrar, sou a Alegria. —
E eu lhe disse: — Bem-vinda sejas, Alegria. —
Outra, tênue, de espuma,
olhos azuis de criança,
lentos gestos de pluma,
surgiu mais tarde a mendigar pousada:
— O meu nome é Esperança.
Venho de muito além. Estou cansada. —
E eu lhe disse: — Descansa.
Bem-vinda sejas, Esperança. —
Veio depois a Felicidade,
tão linda sombra, toda em ouro acesa.
E veio a Dor, veio a Beleza,
veio a Bondade.
Uma noite, bateste. A velha torre
abriu-te as longas portas vagarosas.
E desde então, na velha torre,
tu ficaste, também, serena, inesquecida,
sombra das sombras silenciosas,
tecendo o sonho da minha vida...
(Álvaro Moreyra)

sexta-feira, 27 de março de 2009

Discurso de Augusto Boal pelo Dia do Teatro

Todas as sociedades humanas são espetaculares no seu cotidiano, e produzem espetáculos em momentos especiais. São espetaculares como forma de organização social, e produzem espetáculos como este que vocês vieram ver.

Mesmo quando inconscientes, as relações humanas são estruturadas em forma teatral: o uso do espaço, a linguagem do corpo, a escolha das palavras e a modulação das vozes, o confronto de ideias e paixões, tudo que fazemos no palco fazemos sempre em nossas vidas: nós somos teatro!

Não só casamentos e funerais são espetáculos, mas também os rituais cotidianos que, por sua familiaridade, não nos chegam à consciência. Não só pompas, mas também o café da manhã e os bons-dias, tímidos namoros e grandes conflitos passionais, uma sessão do Senado ou uma reunião diplomática --tudo é teatro.

Uma das principais funções da nossa arte é tornar conscientes esses espetáculos da vida diária onde os atores são os próprios espectadores, o palco é a plateia e a plateia, palco. Somos todos artistas: fazendo teatro, aprendemos a ver aquilo que nos salta aos olhos, mas que somos incapazes de ver tão habituados estamos apenas a olhar. O que nos é familiar torna-se invisível: fazer teatro, ao contrário, ilumina o palco da nossa vida cotidiana.

Em setembro do ano passado fomos surpreendidos por uma revelação teatral: nós, que pensávamos viver em um mundo seguro apesar das guerras, genocídios, hecatombes e torturas que aconteciam, sim, mas longe de nós em países distantes e selvagens, nós vivíamos seguros com nosso dinheiro guardado em um banco respeitável ou nas mãos de um honesto corretor da Bolsa --nós fomos informados de que esse dinheiro não existia, era virtual, feia ficção de alguns economistas que não eram ficção, nem eram seguros, nem respeitáveis. Tudo não passava de mau teatro com triste enredo, onde poucos ganhavam muito e muitos perdiam tudo. Políticos dos países ricos fecharam-se em reuniões secretas e de lá saíram com soluções mágicas. Nós, vítimas de suas decisões, continuamos espectadores sentados na última fila das galerias.

Vinte anos atrás, eu dirigi Fedra de Racine, no Rio de Janeiro. O cenário era pobre; no chão, peles de vaca; em volta, bambus. Antes de começar o espetáculo, eu dizia aos meus atores: - 'Agora acabou a ficção que fazemos no dia-a-dia. Quando cruzarem esses bambus, lá no palco, nenhum de vocês tem o direito de mentir. Teatro é a Verdade Escondida'.

Vendo o mundo além das aparências, vemos opressores e oprimidos em todas as sociedades, etnias, gêneros, classes e castas, vemos o mundo injusto e cruel. Temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é possível. Mas cabe a nós construí-lo com nossas mãos entrando em cena, no palco e na vida.

Assistam ao espetáculo que vai começar; depois, em suas casas com seus amigos, façam suas peças vocês mesmos e vejam o que jamais puderam ver: aquilo que salta aos olhos. Teatro não pode ser apenas um evento --é forma de vida!

Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma!"

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

ORIGENS DO SONHO



Desdém e Reconciliação



O título de meu trabalho de graduação no curso de Bacharelado em Artes Plásticas pela Universidade Federal da Bahia é esse.

Foi algo ligado muito mais às Artes Cênicas do que às Artes Plásticas, apesar de poder ser classificado como performance, que está também dentro das Artes plásticas, uma performance com máscaras, aceita e aprovada pela Prof.ª Dr.ª Maria Celeste de Almeida Wanner, de Prática Profissional, como meu trabalho final para a graduação no curso.


Desdém e Reconciliação fez parte do Projeto Ato de 4 na sala 5 da Escola de Teatro da Ufba, tendo sido apresentada em 05 e 12 de dezembro do ano de 2005. Essa performance foi fruto de um sonho pessoal, e sua concepção desde a seleção de textos até a minha atuação teve pouca interferência de outras pessoas, salvo quando solicitei opiniões ou ajuda de pessoas ligadas à Escola de Teatro para detalhes que me preocupavam quanto ao texto ou à apresentação.


O título foi tirado de um texto "garimpado" na Biblioteca da Escola de Teatro da Ufba, e, confesso, tive ajuda de um funcionário da mesma para encontrá-lo. Faz parte da commedia dell'arte. Originalmente era um diálogo, que transformei em monólogo. Utilizei duas máscaras, a máscara básica e a de Pulcinella.


Esse texto não foi o único utilizado, iniciei com Maquiavel, passei por Brecht, Florbela Espanca e terminei com a commedia dell'arte. Maquiavel introduziu a performance (a introdução de "A Mandrágora"), depois versos de Brecht, então cantei "Fanatismo", cujos versos são de Florbela Espanca com música de Fagner e, nesse momento, troquei de máscara, para finalizar a performance com Desdém e Reconciliação, fazendo um monólogo, mas era como se uma máscara falasse para a outra.


Depois disso, por muito tempo, pensei em realizar performances com versos, sozinha , mas essa idéia foi crescendo e amadurecendo até que, em 2008, resolvi tentar montar um grupo experimental, um projeto diferente, penso em fazer muitas coisas, não um simples grupo de teatro, muito mais que isso.


Um grupo multidisciplinar, com profissionais e estudantes de várias áreas que se disponham a estudar e ensinar, trabalhar no que for preciso, mesmo que não seja de sua área, para que esse projeto realmente dê certo!